Conheça a sinopse do enredo ‘Utopia Brasil: Darcy Ribeiro’

APRESENTAÇÃO

“Às vezes me comparo com as cobras, não por serpentário ou venenoso, mas tão só porque, eu e elas, mudamos de pele de vez em quando.”
Darcy Ribeiro – Confissões

Esta não é uma história de serpentes, mas das peles e mudas de um utópico inveterado. Darcy Ribeiro foi muitos em uma vida só. Cada pele que vestiu nasceu de uma urgência concreta, e cada urgência virou fazimento de uma forma de Brasil possível. Ele deixou lugares, cargos, certezas e derrotas porque o país que ele sonhava exigia novas formas de fazer. O motor de suas travessias é a utopia. O Brasil, para ele, não estava pronto, precisava ser feito. Por isso sua vida pode ser lida como uma sequência de sonhos e obras, imaginação e luta nas tentativas de fazer existir o Brasil que ainda há de ser.

SINOPSE

No princípio eram as Gerais. Montes Claros, uma ilha de verdor no norte de Minas. Eis a terra do homem que não nasceu, foi fundado em um impulso germinal. O menino aprendeu a olhar pelas portas e janelas escancaradas do cartório do avô e enxergou o Brasil feito uma procissão. Aquele era um país de feira em que conviviam, no espaço público, carros de boi, tropa de burros chegada de longe, violeiros e cantadores que desafiavam em versos, e curandeiras com seus remédios para todas as desgraças do corpo. Tão diverso quanto brutalmente violento, transbordando pulsão de vida, cor e movimento nos fazeres e cantares da sua gente. Quando o mês de agosto trazia a Festa do Divino, ele via o mundo virar do avesso, meninos coroados imperadores e mesas fartas, servidas a todos, sem perguntar de quem era a fome. Confessou, anos mais tarde, que no Divino viveu sua primeira utopia: “o meu desejo era ser imperador do Brasil”. O menino Darcy sonhou ser coroado no altar da cultura popular.

Depois fez a travessia. No caminho, se desfez para se refazer. Em Belo Horizonte, a medicina, sonho infantil, lhe escapou das mãos, mas lhe apresentou ideias revolucionárias e tingiu, de vez, sua mente e seu coração de vermelho. Em São Paulo, encontrou o método e os mestres que o formaram antropólogo, e fez a mais decisiva das mudas: trocou o jaleco pela rede de quem dorme onde estuda. Embrenhou-se no país que queria entender como um etnólogo-indigenista de campo, por mais de uma década, no Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob a batuta de Rondon. Mergulhou nas formas de vida dos povos originários em seus próprios termos, disposto a experienciar seus mundos. O que encontrou na floresta reformou a sua imaginação. Sobretudo entre os Kadiwéu e os Urubu-Kaapor, reparou que tudo era feito mais belo do que o uso exigia e entendeu que se pode produzir por prazer, conviver sem violência e fazer da partilha um modo inteiro de existir. Afinal, a vida não é útil. A beleza, ali, era a função das coisas.

Compreendeu que a floresta, afinal, é uma entidade viva e que aqueles feridos pela cerca, pela doença e pela tutela não morrem, como quis fazer crer a falácia da assimilação. Sob a casca seca do apagamento, sobrevivem as fibras, os grafismos, a plumária e a memória que se recusa a ser alijada. Ele chamou isso de transfiguração: a compreensão de que as culturas indígenas se transformam no contato, mas não se apagam. Os indígenas mudam de pele para continuar indígenas, e não era a mesma coisa que o homem fazia consigo?

Da admiração passou aos fazimentos. Foi figura decisiva na construção do Museu do Índio, concebido como um altar para reverenciar a arte, a inteligência e a diversidade dos povos originários, e também na concepção do Parque do Xingu, marco pioneiro na regularização de terras indígenas no país, abrigo tecido para que tantas culturas seguissem vivas. Era já a sua utopia em ato: a recusa de aceitar como destino aquilo que ainda podia florescer.

A mesma utopia que aprendera a proteger na floresta ele quis, agora, semear na nação inteira. Quem aprendeu na escuta dos povos originários, naquela experiência fértil em que se ouve antes de falar, quis devolver ao país o espelho em que ele se recusava a se enxergar. Quis ensinar a nação a se reconhecer, ainda que o chamassem, com o escárnio dos que temem o que não compreendem, de mero “doutor de índios”¹. A pele seguinte foi feita de giz, concreto e luta. A educação já lhe corria nas veias antes de virar bandeira, porque era herança da mãe, a professora Dona Fininha, aquela que lhe ensinou que alfabetizar é um modo de libertar. Em Darcy, a escola nunca foi tarefa serena, nasceu como combate, e teve em Anísio Teixeira a grande referência, o mestre que lhe entregou a causa da escola pública no instante exato em que mãos conservadoras tentavam trancá-la, cerrar-lhe as portas e decretar que o saber não era para todos. Foi dessa luta, e não de outra, que ele tirou a obsessão: a escola de dia inteiro, o lugar onde a criança pobre pudesse brincar, comer, crescer e estudar, porque só assim, e ele o sabia com a clareza dolorosa de quem viu de perto o abandono, se salvaria aquela infância para si mesma e para o Brasil. E ergueu a sua obra mais alta, a Universidade de Brasília, que chamava de filha e da qual foi o primeiro reitor, catedral de saber que floresceu em pleno cerrado seco, milagre de concreto desabrochado feito flor onde ninguém apostava que houvesse água. A educação foi o seu labor e a sua profissão de fé no sonho de um país melhor.

Da sala de aula, Darcy passou ao governo, primeiro como ministro da Educação, depois na Casa Civil. Levou as suas ideias para o coração do poder, e ali, na pele dos que decidem os rumos da pátria, ajudou a formular o caminho brasileiro pelas reformas de base, a via pela qual a utopia chegaria, enfim, ao centro do poder: a reforma agrária, que ameaçava o latifúndio improdutivo; a educacional, que queria a escola para todos; a urbana, a fiscal e a eleitoral, cada uma a desfazer um nó antigo da desigualdade. Era um inventário do Brasil por fazer, e foi por ousar formulá-lo que tantos quiseram silenciá-lo. Uma aliança de fardas, gravatas e cofres o rasgou no meio, antes que a costura se completasse.

O golpe interrompeu um país que enfim tentava repartir-se e, ao derrubar o governo de Jango, atirou Darcy para fora da própria pátria, como se arranca a árvore da terra que a nutriu. Mas há uma ironia amarga e luminosa no desterro, pois foi no exílio que a derrota virou ponto de vista; foi na pele do proscrito que ele acabou compreendendo que a sua utopia jamais fora apenas brasileira, era continental, pertencia a toda uma América Latina ainda por fazer-se, irmanada na mesma ferida e na mesma promessa adiada.

De volta do exílio, ele guardava na bagagem o seu fazimento mais engenhoso. Ergueu então, ao lado de Brizola e de Niemeyer, as sonhadas escolas de dia inteiro, os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). E nesta passarela, em que desfilamos, ano após ano, e que, distraídos, chamamos de Sambódromo, ele havia concebido, na verdade, um Escolódromo, com salas de aula sob as arquibancadas, de modo que a festa repousasse sobre o saber. Bem ali ao lado, participou da idealização do monumento a Zumbi, erguendo-o altivo em plena Praça Onze, território sagrado da experiência negra na cidade, a mítica Pequena África, onde o tambor nunca deixou de ecoar. É este o chão desta avenida que a União de Maricá agora ocupa, chão que, em justa e inevitável homenagem, carrega o seu nome, a Passarela Darcy Ribeiro, por onde desfilam, ainda hoje, as utopias do Brasil.

Na última volta de sua estrada, vestiu, enfim, a pele da imortalidade. Já com o corpo cansado, mas a mente inteira, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e, ao discursar, levou para a casa de Machado uma tese que era também uma convocação: a de que o Brasil é a causa, a tarefa e a missão de todos os brasileiros, não privilégio de provectos acadêmicos, mas dívida e dever de cada um.

Escreveu, diante do mar, na praia de Cordeirinho, em Maricá, o livro que considerou o desafio maior da existência, O povo brasileiro, e nele definiu, enfim, quem somos: um povo novo, nascido do entrechoque do invasor português com indígenas e negros africanos arrancados de seu continente e escravizados, matrizes díspares fundidas a ferro e fogo, sob dor e sob violência. Não embelezou a ferida da formação, não a cobriu de véus piedosos, antes a nomeou com a coragem dos que olham o horror de frente: o Brasil é um moinho de gastar gente. E ainda assim, da mesma boca que pronunciou a sentença, brotou a aposta teimosa no que esse povo moído pode um dia vir a ser.

Então o homem velho, tomado pela urgência dos que pressentem o fim e temem morrer antes de dizer a que vieram, escreveu as próprias feridas e reafirmou suas crenças, uma a uma, deixando as suas confissões e os seus testemunhos. Quando partiu, a dor fez-se acontecimento de muitos. Anos depois, no Alto Xingu, a comunidade mobilizou-se para o Kuarup, foi à mata buscar os troncos, e a madeira cortada e pintada deixou de ser, ela mesma, apenas madeira, para ganhar forma ritual, corpo de memória. Vieram a noite e as fogueiras, os cantos e os pajés; os corpos reuniram-se em torno das efígies e, diante dos troncos que guardam os mortos, a ausência fez-se presença e a saudade fez-se tarefa.

A utopia Brasil não morreu com Darcy, porque utopias não morrem com os homens que as sonham. Como a cobra que larga a pele velha para seguir viva, ela mudou de corpo uma última vez, e agora habita o nosso. Professores e estudantes, povos da floresta e sambistas, trabalhadores e crianças, fazedores de escola, de livro, de aldeia, de praça e de futuro: recebamos a herança. Façamos!


¹ Preservamos “índio” quando reproduzimos Darcy, citamos seu pensamento ou reconstituímos o vocabulário de sua época, por respeito à integridade de sua obra e ao lugar histórico de onde ele falava; adotamos “indígena”, “povos indígenas” e “comunidades indígenas” quando é a nossa voz que escreve, porque é assim que os próprios sujeitos hoje se nomeiam, se mobilizam e reivindicam direitos, recusando o singular genérico e impessoal que apaga a diversidade de mais de trezentos povos em favor de uma autodeterminação que cabe a eles, e não a nós, enunciar.

Autor do enredo: Washington Quaquá.
Carnavalesco: Edson Pereira.
Pesquisador: Mauro Cordeiro.
Assistente de pesquisa: Emanuelle Rosa.
Equipe de criação: Alex Carvalho, Caio Cidrini, João Torres e Ney Junior.

Referências

  • DARCY RIBEIRO EM MARICÁ: a utopia é aqui. Curadoria de Gringo Cardia. Rio de Janeiro: Acasa Gringo Cardia, 2021. Catálogo de exposição.
  • COSTA, João Batista de Almeida (org.). Darcy Ribeiro: o homem e suas peles. Montes Claros: Editora Unimontes, 2022.
  • FUNDAÇÃO DARCY RIBEIRO. Inventários dos arquivos pessoais de Darcy e Berta Ribeiro. Organização de Ellen Cristine Monteiro Vogas. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2011.
  • GALVÃO, Cláudia. Ribeiro, Darcy. In: Dicionário histórico-biográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 2001.
  • HEYMANN, Luciana Quillet. O arquivo utópico de Darcy Ribeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, p. 261-282, jan./mar. 2012.
  • RIBEIRO, Darcy. América Latina: a pátria grande. Prefácio de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2012. (Biblioteca Básica Brasileira).
  • RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  • RIBEIRO, Darcy. Ensaios insólitos. Prefácio de Ana Arruda Callado. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. (Coleção Biblioteca Básica Brasileira; 50).
  • RIBEIRO, Darcy. O Brasil como problema. 1. ed. digital. São Paulo: Global, 2016.
  • RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • RIBEIRO, Darcy. Testemunho: Darcy Ribeiro por ele mesmo. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022.